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Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos

Ensino, Pesquisa e Desenvolvimento

Por Renata Ratton Assessora de Comunicação - Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos
Memria, Solar e muita histria pra contar
Professora emrita do Departamento de Histria, Margarida de Souza Neves assume a direo do Solar / Museu Universitrio Grandjean de Montigny com entusiasmo e projetos

Foto: Renata Ratton - Vice-Reitoria para Assuntos Acadmicos

“Eu estou vendo isso como um desafio, e eu gosto de desafios. E gostaria que fosse um servio comunidade acadmica”.

A reflexo da professora Margarida de Souza Neves (Guida) – emrita do Departamento de Histria e coordenadora do Ncleo de Memria da PUC-Rio desde a sua criao, em 2007 – sobre a sua nomeao, em maro, como diretora do Solar/Museu Universitrio Grandjean de Montigny; mas poderia ser sobre si mesma, pois resume, de certa forma, sua trajetria de pioneirismo e contribuies ao ensino, pesquisa e administrao acadmica da Universidade.

"O acervo principal do Museu Universitrio a casa do arquiteto Grandjean de Montigny, construda na dcada de 20 do sculo XIX, um raro exemplo no Brasil de uma casa de moradia neoclssica. O resto a gente apronta aqui dentro, com muito dinamismo, interao e plasticidade."

“Pareceu direo da Universidade que o Solar tem uma identidade acadmica alm da comunitria, pois a vocao comunitria est em quase tudo na PUC-Rio. Por ser Museu Universitrio, a vinculao ao Ncleo de Memria foi imediata, e vejo o Solar como um museu vivo, no um lugar para guardar coisas antigas. O acervo principal do Museu Universitrio a casa do arquiteto Grandjean de Montigny, construda na dcada de 20 do sculo XIX, um raro exemplo no Brasil de uma casa de moradia neoclssica. O resto a gente apronta aqui dentro, com muito dinamismo, interao e plasticidade”, diverte-se. O Solar e o gato de Alice, documento de trabalho elaborado pelo Ncleo de Memria, conta a histria da casa e esboa sua perspectiva de trabalho.

– A proposta colocar o Solar, com a ajuda de todos, do jeito que a Universidade espera que ele seja. Esse ano vai ser um ano para acertar o passo, para, literalmente, arrumar a casa que tem problemas de acessibilidade, de infraestrutura, de rotina acadmica, mas pretendemos reeditar os antigos saraus e fazer uma pequena mostra com coisas legais sobre Grandjean de Montigny e sobre o Solar, como as plantas da casa, algumas fotos de Augusto Malta, a  aquarela de Roberto Mc Millan Arenas, documentos do arquivo da PUC-Rio, e objetos que ningum nunca viu, como os caquinhos de loua, pedaos de vidro e um peso de balana em ferro encontrados nas prospeces arqueolgicas feitas no entorno da casa. Ns temos projetos e h vrias hipteses – pondera Guida, que constura uma parceria muito ativa com o Projeto Portinari, instalado no subsolo do Solar desde 1980. “Joo Cndido Portinari e eu temos muitos planos e queremos trabalhar de mos dadas, o projeto um trunfo do campus e tem coisas maravilhosas para a pesquisa, por exemplo. Todos os originais das cartas recebidas por Portinari, assim como as fotografias de seu acervo pessoal e o registro de todas as obras, perfeitamente catalogados e digitalizados, esto aqui”.

A diretora sublinha que o Solar teve feitos muito significativos e enfatiza a importncia de se reconhecer o trabalho de todas as pessoas que por ele passaram. “O Solar foi ideia de uma professora do Departamento de Artes & Design chamada Mnica Glceran, que faleceu antes de v-lo se tornar um centro cultural. A primeira diretora foi Irma Arestizbal, seguida por Piedade Grinberg”.

Por outro lado, Guida observa que muitos alunos e professores nunca vieram ao Solar. “Entre os funcionrios, quase s os que tiveram uma funo aqui dentro conhecem a casa. Ento, queremos fazer do Solar um lugar dinmico para a Universidade e para a cidade, construir relaes com outros centros culturais do entorno, dar vida. Acolher sugestes. Tenho muita esperana de fazer muita coisa legal”.



Fotos: Acervo do Ncleo de Memria da PUC-Rio


Ncleo de Memria – Tambm coordenado por Margarida de Souza Neves, o Ncleo de Memria da PUC-Rio, que toma, agora, uma outra dimenso com o Solar, fonte prdiga para pesquisa histrica e novas reflexes dentro e fora da PUC.

Nascido Ncleo de Memria da Ps-Graduao e da Pesquisa da PUC-Rio, ele foi uma ideia conjunta do Vice-Reitor para Assuntos Acadmicos Jos Ricardo Bergmann, poca Coordenador Central de Ps-graduao e Pesquisa, e da prpria Guida, num momento em que muitos programas de ps-graduao comemoravam 30, 40 anos de existncia, alguns deles pioneiros em suas reas, como o da Fsica, o da Educao, o da Psicologia, o da Engenharia Eltrica, entre vrios outros.

– Ao mesmo tempo, percebamos um movimento de renovao do quadro docente, que uma tnica hoje na PUC. Esses professores novos, que esto trazendo um nimo novo para a Universidade, no viveram esses anos heroicos e no tm noo de que esses programas so pioneiros, de como tudo era dcadas atrs. E importante que essa memria seja construda porque ela um componente fundamental da nossa identidade. A nossa identidade o lugar de encontro da nossa memria com os nossos projetos – sublinha a professora. E continua:

"A nossa identidade o lugar de encontro da nossa memria com os nossos projetos."

– Por outro lado, a gente tinha conscincia de que, em se tratando da PUC-Rio, no havia muito sentido em ter um Ncleo de Memria desvinculado da graduao, da Universidade como um todo, porque a graduao e a ps-graduao esto organicamente ligadas aqui. Pouco tempo depois, o Ncleo passou a ser Ncleo de Memria da PUC-Rio. Nosso objetivo era, de um lado, colocar disposio dos pesquisadores daqui e de outras universidades e centros de pesquisa a documentao que a Universidade tem em seus arquivos, quer em documentos escritos, quer em fotografias, quer em entrevistas, quer em outros suportes fsicos. Na verdade, de incio, o Ncleo existia virtualmente:  seu lugar de existncia era seu site.  Aos poucos, fomos ganhando uma pequena base fsica, primeiro no que chamvamos de crcere privado, uma mesa e quatro cadeiras em uma sala sem janelas que dividamos com a equipe da CCPA, que nos acolheu com generosidade, e, agora, na sala 263-L, onde temos uma mesa de reunies, nossos computadores, nosso arquivo e...uma janela!

Por outro lado, Guida esclarece que o Ncleo sempre realizou pesquisas sobre a prpria PUC-Rio ou relacionadas a ela contando, desde o incio, com bolsistas de iniciao cientfica que tanto recolhem e cadastram material documental quanto escolhem temas que relacionam seus interesses acadmicos com a PUC-Rio. “E no apenas os trabalhos de iniciao cientfica; temos uma produo significativa que se traduz em monografias, crnicas escritas para o Jornal da PUC ou para o site, em participaes em congressos, em construo de ferramentas de trabalho como cronologias, bancos de dados, bibliografias, em livros, captulos de livros e artigos ”.

Entre os bolsistas de IC premiados no Programa de Iniciao Cientfica, Guida cita o aluno Reinan Ramos dos Santos, bolsista IC 2012-2013, que abordou um tipo peculiar de escrita autobiogrfica relacionada Histria. “Em sua pesquisa, ele relacionou os Memoriais dos professores titulares, que relatam sua vida em clave acadmica, com as questes mais tericas da escrita autobiogrfica”, explica.

Para dar uma ideia da diversidade dos trabalhos relacionados memria da Universidade, Guida cita outra aluna, Nambia Rodrigues, bolsista IC 2013-2014, que estava interessada em cultura popular.

– Nambia j se formou em Cincias Sociais e sempre foi muito ativa, membro do coletivo Nuvem Negra e envolvida com manifestaes de cultura popular. Ela veio me procurar imaginando que no fosse encontrar, no Ncleo, nada compatvel com seu objeto de pesquisa. Eu disse, como no? A PUC-Rio teve um Vice-Reitor para Assuntos Acadmicos e secretrio da CNBB, o padre Agostinho Castejn, S.J., que morou na favela de Santa Marta, em Botafogo, entre 1975 e 1985, valorizou a Folia de Reis e, pela primeira vez, abriu a capelinha do pico do morro para a Folia e os folies.

A Folia de Reis uma manifestao cultural que geralmente realizada em reas rurais. Entretanto, a populao migrante, que se instalou nas comunidades do Rio, a trouxe para a cidade. A comunidade de Santa Marta foi um desses casos: a Folia de Reis Penitentes do Santa Marta.

– A Folia de Reis segue o seguinte roteiro: durante o tempo do Advento e do Natal, o grupo canta o que chamam de a profecia, a histria do menino Jesus que vai nascer, dos Reis Magos, e o faz de maneira muito peculiar, com versos improvisados na hora pelo Mestre Folio e repetidos por todos os folies em uma toada bela e solene. Esta a parte, digamos, sagrada da Folia, que tem ainda uma parte profana, formada pelos palhaos mascarados, que, aps o canto da profecia, cantam seus versos cheios de duplos sentidos, e executam suas danas acrobticas. As crianas tm pnico e, ao mesmo tempo, fascinao por esses palhaos, que zombam dos presentes e fingem correr atrs das crianas. Os folies entram de casa em casa, recebem dos moradores comida, bebida e doaes em dinheiro, mas os palhaos no entram nas casas, recebem as ofertas do lado de fora, conta a historiadora.

Guida explica que a Folia nada tinha a ver com a igreja, os folies nunca haviam entrado nas capelas do morro. Era uma iniciativa dos moradores. Segundo ela, o padre Agostinho Castejn fez um movimento completamente novo convidando a folia para a capela. “Foi muito emocionante porque eles ficaram numa felicidade enorme, tinha um prespio grande que as crianas montavam, que tinha at girafa. As crianas botavam os bichos que queriam e l ficavam”. Eles ento cantaram para o prespio, para os santos da Capela, para Santa Marta, Nossa Senhora... E o padre Castejn abenoou a folia”.

" muito bom perceber que sempre foi possvel encontrar uma relao entre os interesses e as inquietudes de jovens – e no to jovens – pesquisadores e a histria da PUC-Rio."

De acordo com o trabalho de Nambia, Castejn “participou do cotidiano dos moradores e aprofundou, em sua cultura, tradies e formas de entender o Cristianismo, para o que a Folia de Reis se configurou especialmente relevante”. Nambia fez a iniciao cientfica e sua monografia sobre o tema.

O Ncleo de Memria recebe quatro ou cinco bolsistas de iniciao cientfica por ano: “no momento, temos um  aluno de histria que se interessa por msica e est estudando os festivais realizados no campus, o que revela que a memria da PUC-Rio capaz de dialogar com propostas muito variadas, e isso d cho para desenvolver pesquisa acadmica, ns temos documentao que permite isso – comenta Guida. Outro, aluno de Cincias Sociais, estuda o Parque Proletrio da Gvea, vizinho da PUC-Rio por muitos anos, onde sua famlia viveu. Uma terceira aluna, de Letras, estuda algumas teses e dissertaes de seu departamento que se configuram como autofico. Outra bolsista, aluna de Comunicao, estuda a Associao dos Docentes da PUC (ADPUC) e seu significado na PUC-Rio dos anos 80.

Guida menciona, ainda, dois trabalhos de alunos do Ncleo premiados no concurso 450 anos do Rio de Janeiro, promovido pela Vice-Reitoria para Assuntos Acadmicos: o de Mateus Targueta, sobre Dom Helder Cmara e a Cruzada So Sebastio, e o de Pedro Fraga Vianna, que estudou a Passeata dos Cem Mil nas fotografias de Jos Incio Parente, ex-aluno da PUC-Rio.

O Ncleo de Memria tambm publicou dois livros de pesquisa sobre a Histria da PUC: PUC-Rio – 70 anos, que partiu de pesquisa iconogrfica, textual e documental e, mais recentemente, Igreja Sagrado Corao de Jesus – F, Arte, Memria, sobre as obras de arte que a Igreja da Universidade abriga. “Muita gente no sabe que o nico mosaico de Portinari que foi executado est na igreja da PUC; ou a histria do crucifixo datado provavelmente do sculo XVII, que est l dentro; da Via Sagra, de Carlos Oswald, que foi um importante pintor, desenhista e gravador da virada do sculo XIX para o XX...”, enumera a professora.

As pesquisas para esse ltimo livro duraram cerca de dois anos. “Ns o escrevemos de um jeito muito bacana, pois ele todo coletivo: cada captulo foi escrito por um ou dois dos quatro pesquisadores-snior junto, sempre que possvel, com um bolsista de iniciao cientfica. E os bolsistas participaram das pesquisas. Tudo discutido, lido, escrito e revisto em conjunto”.

O Ncleo realiza ainda pesquisas de menor flego, ainda que de muita importncia porque lidas por um pblico mais amplo, para as Crnicas de Memria, do Jornal da PUC, que, a cada ano, abordam um tema. “A primeira edio das crnicas teve um tema engraado. Percebemos que todos os prdios da PUC tm colunas: as colunas dos pilotis, que so smbolo da PUC, as colunas do Solar, as colunas da casa da Biologia, as colunas do Palacete Joppert, na rua So Clemente, onde a PUC-Rio nasceu. Ento, abordamos essa constante arquitetnica, em suas diferentes verses, nas vrias construes que compem a PUC. Os cinco primeiros anos das crnicas esto publicados em livro. Pretendemos continuar a publicar outros volumes de cinco em cinco anos.

Guida salienta que o Ncleo de Memria sempre procura juntar a formao dos alunos pesquisa documental, escrita e reflexo terica. “Temos um seminrio semanal para a discusso de textos tericos sobre memria, sobre a relao da memria com a Histria, essa dimenso da pesquisa est muito presente em nosso cotidiano.

O Ncleo atende a muitos pesquisadores de dentro e de fora da Universidade. At da Rssia recebeu solicitao de infomaes sobre o computador Burroughs Datatron B-205, o primeiro computador de grande escala a ser utilizado para trabalho acadmico na Amrica do Sul. Inclusive, um artigo oriundo de pesquisa sobre o B205, redigido na parceria entre duas pesquisadoras do Ncleo e o professor Arndt von Staa, da Informtica, foi apresentado em congresso de Histria da Informtica (http://nucleodememoria.vrac.puc-rio.br/sites/default/files/documentos/producao-nucleo/artigos/b-205-puc-rio.history-first-computer-operate-brazilian-university.17106.pdf). “ muito bom perceber que sempre foi possvel encontrar uma relao entre os interesses e as inquietudes de jovens – e no to jovens – pesquisadores e a histria da PUC-Rio”.

O Ncleo de Memria segue desvendando as PUCs que a PUC-Rio tem...

Uma histria de pioneirismo

A professora Margarida de Souza Neves escreveu a primeira monografia de bacharelado do Departamento de  Histria da PUC-Rio e foi a primeira doutora do Departamento. Formou-se em licencitura em 1965 e em 1966 em bacheralado.

– Eu me graduei em dezembro e em maro estava dando aula, com 21 anos. Em 1968, quando o pas vivia tempos difceis com a ditadura que se seguiu ao golpe civil-militar de 1964, eu tive algumas dificuldades e o padre Larcio (Larcio Dias de Moura, S.J., ento Reitor da PUC-Rio) me perguntou se eu gostaria de ir para o exterior fazer um doutorado, j que no era prudente continuar no Brasil... Por sinal, essa histria se repetiu com vrios professores e ex-alunos da PUC-Rio naquela ocasio. Recebi, ento, uma bolsa para estudar em Louvain, na Blgica, e l fui fazer o doutorado, para retornar PUC-Rio titulada – recorda-se.

Guida estudou e ministrou aulas na Universidade Catlica de Louvain, onde tambm trabalhou no Centrum Pro America Latina, que formava quadros para vir para o Brasil, em geral empresrios, investidores ou pessoas ligadas s igrejas. Para ela, um pblico diverso e interessante. “Quando acabei minha tese, ainda era muito jovem e, na Blgica, havia um impedimento para a defesa antes dos 30 anos. Recebi uma bolsa do Mercado Comum Europeu e parti para uma especializao pela Universidade de Nice, mas que era realizada em Aosta, na Itlia”.

Era uma instituio de estudos superiores sobre o federalismo, muito ligada ao Mercado Comum Europeu. Guida estudava o Federalismo no Brasil, tema de sua tese. Na Itlia, conheceu um professor espanhol que se interessou por seu trabalho e a convidou para defender sua tese na Espanha.

– S que eu no falava uma nica palavra de espanhol e teria que escrever a minha tese em espanhol depois de t-la escrito em francs; mas, como eu teria que esperar mesmo para defender, acabei aceitando o convite e fui para Universidade de Madrid, onde defendi a tese em 1975.

Corria o ano de 1976 e j era possvel voltar sem perigo. Cinco dias depois de chegar, Guida estava dando aula no Departamento de Histria como sua primeira doutora. Foi bolsista do CNPq (1A), Cientista do Nosso Estado pela Faperj, e coordenou a rea de Histria nas duas agncias, alm do Comit Avaliador dos Programas de Ps-Graduao de Histria na Capes. professora aposentada da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Na PUC-Rio, nunca parou de dar aulas e foi diretora do Departamento de Histria, coordenadora de graduao e de ps-graduao de seu departamento, do Centro de Cincias Sociais (CCS), bem como Coordenadora Central de Ps-Graduao e Pesquisa.


1964: Em sala de aula no Leme, com os colegas do curso de Histria e do Curso de Geografia (fita branca no cabelo)
1966: De brao erguido, aos 21 anos, em uma Assemblia de Estudantes no Prdio Leme
1966: No dia da formatura em Histria, com o Pe. Benko, S.J.
Carteira da biblioteca da Fondation Nationale des Sciences Politiques, da Universit Paris - XIII
Carteira da Universidade de Madrid

Fotos: Acervo do Ncleo de Memria da PUC-Rio




Publicada em: 20/04/2018