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Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos

Ensino, Pesquisa e Desenvolvimento

Por Renata Ratton Assessora de Comunicação - Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos
As doenas da beleza e as agruras do envelhecimento so objetos de estudo, ao e parcerias nacionais e internacionais de ncleos do Laboratrio Interdisciplinar de Pesquisa e Interveno Social (LIPIS)

Distrbios psicolgicos relacionados imagem corporal parecem ter atravessado inclumes a longa trajetria humana de idealizaes, compulses e frustraes, que podem comear na infncia e no necessariamente se encerrar na velhice. o que mostram, ao longo de mais de uma dcada, os estudos e a atuao teraputica conduzidos pelo Ncleo de Doenas da Beleza, e, mais recentemente, pelo Envelhecentro, ambos vinculados ao Laboratrio Interdisciplinar de Pesquisa e Interveno Social (LIPIS), que tem frente as pesquisadoras Junia de Vilhena (Coordenadora do LIPIS/ Envelhecentro) e Joana Novaes (Coordenadora do Ncleo de Doenas da Beleza).

Na verdade, as pesquisas relacionadas s questes do corpo abrangem mais de duas dcadas, considerando os vieses do preconceito e da violncia contra a mulher elaborados pela professora Junia. A questo esttica, entretanto, cada vez mais presente e avassaladora com o avano das tecnologias tanto de informao quanto mdicas, aflorou com o trabalho de concluso do curso de Psicologia de Joana: O corpo do consumo e o consumo do corpo, de 1998.

Joana conta que, na poca, comeou a se perguntar por que, mesmo no gostando, as pessoas se obrigavam a frequentar as academias de ginstica para cumprir uma extenuante rotina de exerccios e quis buscar respostas em sua pesquisa de campo em (academias de ginstica da  zona sul carioca).

O trabalho de concluso de curso de Joana teve sequncia na dissertao de mestrado e na tese de doutorado, respectivamente, Perdidas no espelho? Sobre o culto ao corpo na sociedade de consumo e Sobre o intolervel peso da feiura. Corpo, sociabilidade e regulao social, sob a orientao da professora Monique Augras. A ltima, por sinal, deu origem ao primeiro livro da pesquisadora, O Intolervel peso da feiura. Sobre as mulheres e seus corpos (Ed. Garamond/PUC-Rio, 2006), que trata da tirania esttica ocasionada pelo culto ao corpo, fonte de angstia para as mulheres, estimulando prticas corporais cada vez mais radicais.

– No desenrolar dessa nova vertente de pesquisa, aps Joana ter desenvolvido a sua pesquisa de doutoramento com mulheres que haviam se submetido a cirurgias plsticas e igualmente, com mulheres bariatrizadas, foi inaugurado o Ncleo de Doenas da Beleza, em 2005, como um dos eixos de pesquisa do LIPIS, integrado Vice-Reitoria Comunitria, em virtude de seu carter interdisciplinar e social – conta Joana. Uma srie de parcerias foram firmadas, com instituies do Brasil e do exterior, como a Fundao Mapfre e a Universidade de Coimbra, onde ambas as professoras so colaboradoras do Instituto de Psicologia Cognitiva.

Na trajetria de pesquisa do ncleo, alm de inmeros artigos e orientaes de monografias, dissertaes e teses, outros trs livros foram publicados: Com que corpo eu vou: sociabilidades e usos do corpo nas mulheres das camadas altas e populares – (Joana de Vilhena Novaes - Ed. Pallas/ PUC-Rio, 2010), fruto do Ps-Doutorado em Psicologia Social, alm das coletneas de ensaios organizadas por ambas como Corpo para que te quero? Usos, abusos e desusos – Ed. Appris. 2012 e Que corpo este que anda sempre comigo? Corpo, imagem e sofrimento psquico, da mesma editora e lanado em 2016.

Parcerias

Um dos projetos do LIPIS com parceria internacional, e em fase de concluso, recebeu o financiamento da Fundao Mapfre e envolveu as universidades de Coimbra, em Portugal, e Extremadura, na Espanha. O projeto busca explorar a correlao existente entre o uso abusivo da internet e os transtornos alimentares e de imagem corporal, tomando como campo pesquisado jovens universitrios dos trs pases.

Joana Novaes em palestra na Universidade de Coimbra, uma das parceiras do LIPIS - crdito: arquivo pessoal

– A ideia foi desenvolver estudos com as mesmas metodologias de aferio utilizadas nos primeiros trabalhos, realizados na China (Taiwan), dado o aumento significativo de distrbios ligados esfera corporal observados. Os resultados vo subsidiar um protocolo de preveno e promoo da sade que passar por estratgias de avaliao e de diagnstico correto das condies de risco – comenta a professora Junia.

Os estudos partiram da premissa de que, uma vez sabido que o aumento do uso da internet correlaciona-se com o aumento da chance de risco de desenvolver psicopatologias, torna-se necessrio pautar mecanismos corretos e adequados populao. Os pesquisadores pretendem gerar esses coeficientes para assessorar e embasar a criao de um guia informativo de promoo de sade; um website (http://mhealth.cogtech.com.br) foi desenvolvido para auxiliar no processo de identificao e avaliao do uso excessivo da internet, bem como as patologias alimentares associadas.

Acredito que as redes sociais tenham contribudo mais para piorar do que para melhorar o sofrimento em relao s questes do corpo, pois a exposio pessoal alcanou nveis nunca antes imaginados e as pessoas so capazes de fazer coisas terrveis na internet. Por outro lado, a tecnologia tambm possibilita a pessoas que se sentem totalmente sozinhas e sem orientao encontrar grupos de apoio e trocar experincias, pondera Junia.

Tambm com o financiamento da Mapfre e parceira com as universidades da Espanha e de Portugal, o projeto Anlisis de La Adiccin a Internet y al Mvil, Salud Mental y Cyberbullying em Universitarios Espaoles, Portugueses y Brasileos, recentemente concludo, teve o intuito de explorar como jovens universitrios dos trs pases utilizam a internet (condies de uso e frequncia), praticam ou sofrem violncia atravs deste meio (cyberbullying) e encontram-se em relao aos sintomas relacionados com alteraes do humor e de ansiedade. “Os resultados esto sendo utilizados na elaborao de um protocolo de preveno prtica de cyberbullying; foi organizado, em agosto, um evento internacional sediado na Universidade”, acrescenta a professora.

Teses em curso

Atualmente, uma das teses orientadas por Junia de Vilhena aborda os aspectos psquicos da compulso alimentar em sujeitos submetidos cirurgia baritrica e que possuam tal diagnstico na avaliao pr-operatria. O objetivo da tese Compulso Alimentar e Cirurgia Baritrica:  os aspectos psquicos da fome que o bisturi no alcana, da aluna Monica Vianna, pesquisar a dimenso psicolgica da compulso alimentar no contexto especifico da cirurgia baritrica, a partir de uma perspectiva terica psicanaltica.

A pesquisadora entende a cirurgia baritrica como importante aliada na reduo de peso e na melhora das comorbidades de pacientes obesos, observando, entretanto, existir uma demanda por mais informaes sobre consequncias e desdobramentos de comportamentos alimentares inadequados. “A compulso alimentar no tem vinculao irrestrita com a obesidade, mas esse quadro tem prevalncia consideravelmente aumentada na populao baritrica. Alm disso, os sujeitos obesos com compulso alimentar manifestam pior resposta aos tratamentos no cirrgicos para emagrecimento”, sublinha a orientadora.

J na tese Emagrecendo na rede: um estudo acerca do universo das #instafitness, a aluna Bruna Madureira analisa mulheres que perdem peso estimuladas por suas postagens em ferramentas sociais como o Instagram, que funciona como um dirio de telas que revela a evoluo do emagrecimento por meio das imagens diariamente compartilhadas. Ao se constituir como um novo universo de pesquisa do ncleo, este projeto busca compreender de que maneira o sujeito feminino se apropria da tecnologia para emagrecer na contemporaneidade. Para isso, foram entrevistadas 28 mulheres de todo o Brasil que emagreceram entre 10 e 80kg no perodo de um ano, sem passar por nenhum tipo de interveno cirrgica.

A sexualidade feminina aps a cirurgia baritrica constitui mais uma nuance da safra de pesquisas que surgiram com a evoluo do mtodo. A aluna Nlia Mendes parte da prtica clnica com mulheres que se submeteram cirurgia baritrica para investigar os significados da sexualidade aps a realizao deste procedimento. Pelo vis terico da psicanlise, busca analisar as modificaes da sexualidade e da vida sexual em mulheres obesas aps a cirurgia e verificar as possveis derivaes da sexualidade neste contexto especfico.

Bruna, Monica e Nlia: doutorandas pesquisam aspectos distintos das doenas da beleza - crdito: arquivo pessoal

Envelhecentro

Este ncleo do LIPIS, que aborda, mais de perto, as questes relacionadas velhice, surgiu de discusses com o grupo de pesquisa da Universidade de Coimbra. “Esse grupo funciona h cerca de quatro anos; certa vez, me chamaram para fazer palestras relacionadas ao tema da velhice e o interesse sobre a rea cresceu. curioso notar como as pessoas, em especial as de classes mais abastadas, parecem ‘no morrer’ mais. Expedientes como homecare e toda a evoluo de tratamentos a que tm acesso protelam uma vida que se extinguiria muito tempo antes, comenta Junia.

Entretanto, a perda da beleza e da cognio, por exemplo, alm da condio de decrepitude que se faz presente na velhice, so inevitveis e necessitam ser investigadas para auxlio psicolgico adequado aos idosos.

Corpo, imagem e sofrimento psquico constitui a primeira de duas linhas de pesquisa em andamento no Envelhecentro com subprojetos desenvolvidos com as universidades citadas e financiamento internacional parcial.

O objetivo analisar os discursos contemporneos acerca do corpo em sua relao com a imagem e o sofrimento psquico. Parte-se do pressuposto de que os discursos que normatizam o corpo tomam conta da vida simblico-subjetiva do sujeito, no deixando espao para a construo de uma narrativa individual.  Ele fala e falado atravs de diferentes discursos conforme observa a professora Joana. Diferentes campos e eixos de investigao so desenvolvidos, entre os quais se destacam: culto ao corpo e subjetividade feminina; corpo, imagem e envelhecimento; corpo, imagem e tecnologia; corpo, sade e medicina; corpo e regulao social; corpo, raa e preconceito.

Corpo, imagem e envelhecimento – agenciamentos subjetivos e sofrimento psquico prope, por sua vez, investigar as peculiaridades relacionadas ao fenmeno “ser velho” e seus impactos no sujeito, destacando o lidar com o desencontro entre o inconsciente atemporal e o corpo envelhecido.

– Percebe-se que pouca ateno dada ao lugar que o corpo ocupa enquanto construo identitria, sobretudo quando se trata de classes menos favorecidas. O corpo , antes de mais nada, um corpo-ferramenta, um corpo do trabalho que, gradativamente, vai deixando de ser to eficiente. Na pesquisa, buscamos, tambm, como objetivos, explicitar como o conjunto de avaliaes morais acerca do envelhecimento do corpo feminino, visto como um processo de perda da beleza, constitui uma importante fonte de sofrimento psquico para um nmero cada vez maior de sujeitos. fundamental frisar que velhice no diagnstico, muito menos quadro clnico que demande qualquer interveno teraputica. Entretanto, parece ser uma questo frequente nos velhos que procuram atendimento clnico a queixa de estarem “sofrendo de velhice”. Nesse sentido, nos propomos a escutar o que eles tm a dizer, tudo o que ainda podem ter a dizer sobre si, sobre os outros e sobre o mundo. E, partindo dessas falas, poder re-significar suas representaes acerca do prprio corpo, da prpria vida e da posio social e simblica que ocupam na sociedade, explica Junia.

Ambas as pesquisas redundaram em monografias, dissertaes e teses de doutorado, dentre elas, a tese de Carlos Mendes Rosa, defendida em 2015, Envelhecer em tempos de juventude: corpo, imagem e temporalidade.

O trabalho uma reunio de artigos sobre as particularidades do envelhecimento em homens e mulheres no atual contexto, com destaque para o silenciamento e o distanciamento em relao velhice, especialmente no que toca aos temas da decrepitude, da morte e do trabalho de elaborao psquica necessrios para enfrentar essa ltima fase da vida.


Dando continuidade s trocas internacionais, a professora Junia de Vilhena foi convidada para ser keynote speaker no Ageing  Congress 2018 - Congresso Internacional sobre Envelhecimento, a ser realizado na Coimbra Business School, em maio de 2018. 




Publicada em: 06/12/2017