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Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos

Prêmios e Destaques Acadêmicos

Por Renata Ratton Assessora de Comunicação - Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos
Honra aos eméritos

Fernando Lázaro, da Física, Terezinha Féres Carneiro, da Psicologia e Luiz Carlos Scavarda (post mortem) recebem título de Emérito em cerimônias do CTC e do CTCH

Cinquenta anos de PUC, brilho no olhar de quem acaba de chegar. Emocionados, apaixonados e felizes em seguir compartilhando o saber e a experiência acadêmica e de vida, Fernando Lázaro Freire Junior, da Física, e Terezinha Féres-Carneiro, da Psicologia, receberam o título de Professores Eméritos, em junho, nas reuniões do Conselho Departamental do Centro Técnico Científico (CTC) e do Centro de Teologia e Ciências Humanas (CTCH), respectivamente. A professora Terezinha recebeu ainda a Medalha Cardeal Leme, honraria destinada aos que contribuíram para a educação e a Universidade.

Ainda no Conselho do CTC, a homenagem post mortem ao professor Luiz Carlos Scavarda do Carmo – pesquisador e docente da Física, ex-Decano do Centro Técnico Científico, Coordenador Central de Projetos e Vice-Reitor Administrativo da PUC-Rio, falecido em 2021 – contou com a presença de seus quatro filhos (um deles, o professor Luiz Felipe Savarda, diretor do Departamento de Engenharia Industrial) e de sua neta Ana Teresa, que realizou um breve discurso de agradecimento, em nome da família.

Segunda casa – Fernando Lázaro chegou à PUC em 1975 para cursar Engenharia Elétrica, mas acabou seguindo para Física, onde havia vários projetos patrocinados pela Financiadora de Estudos e Pesquisas (FINEP), que, à época, era a responsável por toda a sustentabilidade da pesquisa no Centro. Desde a graduação, sempre passou muito tempo no campus, no mínimo 8 horas.

– Integrava o movimento estudantil no Diretório da Física, Química e Matemática – Diretório Acadêmico Galileu Galilei. Fiz mestrado e doutorado na PUC e, logo que concluí o doutorado, em 1985, surgiu um concurso para professor e fui contratado. Foram 36 anos atuando como professor, mas, na verdade, faço parte do corpo docente desde 1979, porque, quando me formei no bacharelado, havia um programa de auxiliar de ensino e pesquisa que passei a integrar. Portanto, dou aula a mais tempo do que o tempo que tenho como professor, conta Lázaro.

Além de extenso currículo junto à comunidade científica brasileira, Lázaro foi diretor da Física em dois períodos, de 2003 a 2007 e de 2016 e 2017. Tem vários projetos em andamento, o último recentemente aprovado no edital de equipamentos de grande porte, da Faperj. É coordenador de rede de nanodispositivos, também da Faperj, e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Engenharia de Superfícies.

– Fiz minha iniciação científica com um dos fundadores da PUC-Rio, o padre Cullen S.J.. No mestrado, trabalhei na interface da física nuclear com a física atômica, já no Van de Graaff, e o meu orientador era o professor Ênio Frota, ainda docente do Departamento, que acabava de chegar da França. No doutorado, meus orientadores foram os professores Alceu Pinho e Nelson Velho, na área de física atômica. Depois da minha tese de doutorado é que passei a trabalhar com materiais. Fui para a Itália, em Padova, realizar meu pós-doc, onde aprendi técnicas de caracterização de materiais usando acelerador – que era a ferramenta que tínhamos no Van de Graaff.

Ao retornar, no inicio dos anos 1990, Lázaro começou a montar uma infraestrutura na PUC-Rio, com o auxílio do programa PADCT de novos materiais, e a trabalhar com revestimentos de carbono: “tive sorte porque era o início da onda dos discos rígidos magnéticos”.

Revestimentos de carbono eram utilizados como última camada dos discos rígidos protegendo-os contra corrosão, desgastes, problemas mecânicos. Tratava-se de um tema extremamente importante no cenário internacional e a pesquisa conduzida na Física foi muito citada. Lázaro recebeu muitos convites para palestras, apresentação de trabalhos e conquistou importante visibilidade internacional. O professor seguiu com seu trabalho em revestimentos até os anos 2000, quando passou a trabalhar com nanotubos de carbono e, em seguida, com o grafeno. Nos últimos quatro anos, o professor dirige sua pesquisa a materiais bidimensionais, conhecidos como dicalcogenetos de metais de transição (transition-metals dichalcogenides – TMDs):

– Boa parte dos desenvolvimentos atuais está nesta nova família de materiais, que parece promissora no desenvolvimento de dispositivos (há exemplos na IBM e na Samsung que mostram a possibilidade de construir dispositivos que superem a limitação do silício, com bons resultados). Temos trabalhos de três pós-docs, de três alunos de doutorado e de um aluno de graduação em parceria com o Departamento de Engenharia Química e de Materiais.

Na PUC-Rio, Fernando Lázaro conta que fez boas amizades e mantém ótimo relacionamento com todos os seus ex-alunos, que estão pelo Brasil e exterior, tanto em institutos de pesquisa, como em empresa.

Durante a cerimônia de titulação, em lágrimas, o novo emérito agradeceu a honraria e afirmou ter um grande significado tantos anos de carreira no campus Gávea. O professor comentou que estava muito tocado com a homenagem do e não tinha palavras para expressar o que sentia naquele momento.

Identidades entrelaçadas – “Terezinha PUC-Rio. É assim que a professora Terezinha é chamada na comunidade científica”, entrega seu colega de décadas, o professor Jesus Landeira Fernandez, da Psicologia. Não é preciso Freud para explicar. Therezinha é parte da história do Departamento de Psicologia, onde está desde a sua formação como a primeira graduação da área no Brasil, ainda na década de 1960.

– Acredito que um dos mais importantes marcos de sua carreira tenha sido a primeira gestão como diretora, em 1977: era um período de muita turbulência, 500 alunos boicotavam as aulas em protesto à demissão de professores. A Terezinha conseguiu contornar a crise com o apoio do então reitor Pe. Mac Dowell, S.J. Por sua competência e generosidade, se tornou muito querida tanto na Psicologia quanto na PUC, relata o professor.

De acordo com Landeira, Terezinha sempre teve ligação forte com a pós-graduação, tendo atuado na criação do primeiro curso de mestrado em psicologia clínica do Brasil, na PUC-Rio, e ocupado, por várias vezes, a coordenação do programa de pós-graduação do departamento. Sua presença no País é igualmente notória: foi presidente da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa de Psicologia, presidente do Comitê Assessor do CNPq e sempre participou da Capes. Fundou ainda o programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

– A professora é Cientista do Nosso Estado desde o início do programa e sempre contou com bolsas de produtividade. Ela é uma das fundadoras da área de terapia familiar no Brasil, com vários livros publicados e profunda interação com pesquisadores da França, país que teve influência significativa na psicanálise brasileira, observa o professor.

Enquanto diretora da Psicologia, Terezinha também foi responsável por unir o estágio profissional à docência no Serviço de Psicologia Aplicada da PUC. Segundo Landeira, durante seu recente mandato como diretor do departamento, ela o auxiliou a promover grandes mudanças, que resultaram em um aumento significativo de alunos de graduação, na construção de laboratórios de ensino, na renovação do quadro docente e atualização do currículo e na integração cada vez mais forte entre a graduação e a pós.

– A capacidade de gestão e de liderança da Terezinha ajudou a implementar todas essas mudanças nos últimos dez anos. Ela tem uma visão acadêmica muito clara, as pessoas se consultam com ela. É um nome de referência dentro e fora da Universidade e continua ativa, orientando dissertações e teses em nosso programa de psicologia clínica, especificamente em sua área de clínica da família. Sempre conjugou sua vida na PUC com sua atuação como terapeuta familiar, mas, em vários momentos, abriu mão de suas atividades pessoais em prol da PUC. Na pesquisa, ela é uma das poucas pessoas que transitam, com excelência, entre as áreas mais distintas da psicologia – da psicometria à psicanálise.

Na cerimônia, Terezinha se disse surpresa e emocionada com a solenidade:

“Foi meio de repente, eu nem sabia que, oficialmente, o título já estivesse concedido Fiquei muito emocionada, é uma vida dedicada à Universidade. Entrei como aluna há 55 anos, e há 50 anos sou professora do Departamento de Psicologia. Combati o bom combate, completei a corrida e mantive a fé”.

Ao mestre com carinho – Era 1979. Ainda no Ciclo Básico, o aluno de graduação Sidnei Paciornik, hoje decano do CTC, ingressava em uma iniciação científica, no Departamento de Física, com o professor Luiz Carlos Scavarda do Carmo. Na ocasião, certamente não tinha ideia de que toda a sua jornada acadêmica na Universidade estaria intimamente conectada com Scavarda – da graduação a sua contratação como docente, em mais de uma década de interação cotidiana.

– O Scavarda atuava no grupo de física da matéria condensada experimental quando direcionei meus interesses para a área. Logo de início, ele me propôs desenvolver um instrumento de medição: eram necessárias temperaturas muito baixas para realizar determinados experimentos, somente obtidas com sistemas de vácuo. Havia bombas que produziam o vácuo e os medidores de pressão de vácuo eram importados. O instrumento funcionou e prestou serviço durante anos no departamento. Já naquela época o Scavarda tinha essa visão de mão na massa, comenta o decano.

Para Paciornik, é muito difícil separar a figura do professor, orientador e cientista da figura do amigo. “Ele era uma pessoa muito informal, divertida, carinhosa. E, através dele, fiz grandes amigos também. Era fácil estar com ele, lidar com ele. O Scavarda, como eu, sempre gostou muito da transdisciplinaridade, do estudo das línguas, dos jogos de palavras. Ele tinha uma cultura clássica, era um erudito, inclusive ao piano.

Como administrador, Scavarda teve papel fundamental na busca pela sustentabilidade do Centro Técnico Científico e da Universidade. Durante a crise dos anos 1980, com a perda do financiamento da FINEP e a necessidade de buscar parcerias para projetos de pesquisa com a indústria, o professor enfrentou a crise de forma criativa: “Ele era um físico com visão pragmática do mundo e tinha muito trânsito com a direção da Universidade. Logo percebeu a importância de abrir a PUC a financiamentos de P&D criando um escritório de desenvolvimento e um escritório de propriedade intelectual que protegesse nossa produção, hoje a Agência PUC-Rio de Inovação”.

De acordo com Paciornik, outra marca importante da gestão de Scavarda como decano foi a discussão do Ensino de Engenharia – por meio do projeto REENGE, pioneiro em trazer para o ensino da graduação a solução de problemas reais e o empreendedorismo. Como extensão do ensino universitário, a preocupação com a formação dos alunos, ainda na escola, fez com que criasse o Programa de Integração Universidade – Escola Secundária (PIUES), no CTC, agora Programa Universidade-Escola-Sociedade envolvendo todos os departamentos da PUC-Rio.

– Foi do Scavarda e do Raul Nunes (ex-docente do Departamento de Engenharia Química e de Materiais – DEQM e parceiro de Scavarda em diversos projetos e ideias) a iniciativa de formatar uma sólida parceria com a Petrobras, inicialmente dirigida ao financiamento de cátedras, mas que depois se transformou em fundos de participação da indústria de petróleo e gás, que culminariam na construção do prédio da Petrobras no campus. Várias instâncias da PUC que hoje parecem óbvias, vários processos que hoje encaramos como naturais, simplesmente não existiam antes do Scavarda. Como Vice-Reitor para Assuntos Administrativos, por exemplo, foi ele o responsável pelo mecanismo de orçamentação das unidades da PUC-Rio, definindo critérios para a alocação de recursos para cada departamento e unidade, garantindo sua estabilidade financeira.

No ano anterior à pandemia, Scavarda recebeu nova missão do então reitor, Pe. Josafá Carlos de Siqueira, S.J.: foi designado assessor especial da Reitoria para que construísse uma visão do futuro da PUC-Rio em conjunto com os professores titulares da instituição. Ao assumir a função, alocado em sala do Decanato do CTC, o mestre reencontrou seu discípulo, agora decano. Ativo, como sempre, pensou a Universidade até o fim.




Publicada em: 05/07/2022