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Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos

Ensino, Pesquisa e Desenvolvimento

Por Renata Ratton Assessora de Comunicação - Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos
Inesgotável Lispector

Livro de ensaios, fotos, depoimentos, cartas e crônicas inéditas, organizado pelo professor Júlio Diniz, de Letras, “traz uma Clarice para o Brasil que queremos e sonhamos”


Quanto ao futuro - Clarice, que reúne ensaios, fotografias e depoimentos inéditos, organizados pelo professor do Departamento de Letras e Decano do Centro de Teologia e Ciências Humanas, Júlio Diniz, foi lançado na noite de 29 de novembro pelas editoras Bazar do Tempo e PUC-Rio.

O livro iniciou o seu percurso de sucesso e ainda contará com lançamento on-line e evento promovido pelo Instituto Moreira Salles. Inúmeros pesquisadores e professores entraram em contato com o professor Diniz e alguns dos colaboradores para saber mais detalhes, visando à adoção em cursos de graduação e pós-graduação. Já há palestras agendadas para o ano de 2022 em faculdades e centros culturais.

Leitor voraz e apaixonado pela autora, Diniz falou sobre o projeto do livro, o lançamento e quanto ao futuro à Assessoria de Comunicação da Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos.

Na noite de autógrafos, na Livraria da Travessa, o professor Júlio Diniz recebeu familiares, amigos e admiradores de sua obra - fotos: DIVULGAÇÃO

Como se deu sua experiência com Clarice Lispector como leitor? Foi estudioso da obra da escritora, desenvolveu trabalho pregresso?

Eu virei um leitor apaixonado pela obra de Clarice desde o momento em que li um dos seus contos na escola. Tinha uns 14 anos e tomei um susto. Fiquei perplexo e atordoado com Feliz aniversário, esse era o texto. Aquela maneira de narrar uma estória para mim era única, perturbadora e transformadora.

A partir daí, nunca mais deixei de conversar com Lispector, leio seus textos praticamente toda a semana, nem que seja por alguns minutos e poucas linhas. Só comecei a trabalhar sua obra como leitor profissional e pesquisador em meu mestrado, no início dos anos 1980.

Como surgiu a ideia e quando identificou a oportunidade para produzir Quanto ao futuro - Clarice?

Eu e um grupo de sonhadores queríamos homenageá-la, de alguma maneira, no seu centenário. Juntamos pesquisadores, alunos, professores e interessados em um projeto que compreendia a realização de um evento e a publicação de um livro. Fizemos uma parceria com o Instituto Moreira Salles e o Suplemento Pernambuco, o melhor caderno de literatura e cultura publicado hoje no Brasil. Recebemos de imediato o apoio de Paulo Gurgel Valente, seu filho, que nos liberou a utilização e a publicação de imagens e trechos da obra.

O projeto cresceu e, à ideia original, somou-se a realização de uma exposição. O evento, um seminário internacional com grandes especialistas na obra de Lispector, estava planejado para ocorrer no campus da nossa Universidade e na sede do IMS. O livro ficaria por nossa conta e a exposição seria realizada pelo Instituto Moreira Salles.

Com a pandemia, os projetos foram sendo cancelados, adiados ou esquecidos. Foi em 2021 que retomamos a fúria do desejo e investimos com toda a dificuldade e limitação na escolha e organização dos originais.

Como se deu a organização e como foi pensada a escolha dos colaboradores?

Foi um longo e paciente trabalho. Eu tinha pensado em inúmeros nomes, no Brasil e no exterior, todos envolvidos com distintos aspectos da vida e da obra da escritora; mas o clima gerado pela pandemia, não só pela pandemia, deixava quase todo mundo abatido, desanimado, com medo, verdadeiramente desmotivado. O convite para participar do livro foi um alento para vários dos ensaístas que se dispuseram a contribuir com suas reflexões e análise para a atualização da fortuna crítica de Clarice.

O resultado final para mim foi excelente. São textos que abordam diferentes temas, com olhares que singularizam a leitura, e possibilitam uma ampla percepção da trajetória de vida e obra de Lispector no nosso presente. O título, tomado de empréstimo a um dos mais importantes textos da autora, A hora da estrela, expressa com muita objetividade o nosso propósito, traduz com força o nosso desejo. Uma Clarice para o porvir, para todos os leitores do presente e do futuro. Uma Clarice para o Brasil que queremos e sonhamos. Nada de homenagem saudosista, de tom melancólico, com os pés no passado.

Como foram feitos os contatos com as contemporâneas, quem foram elas?

O Núcleo de Memória da PUC-Rio guarda, em seu acervo, fotos preciosas do dia em que Clarice Lispector esteve em um evento no Auditório do RDC, a convite de Affonso Romano de Sant'Anna, à época diretor do então Departamento de Letras e Artes.

Nas fotografias aparecem três grandes amigas, três grandes escritoras: Marina Colasanti, Nélida Piñon e Clarice. Procurei informações sobre o evento, pedi ajuda à nossa mestra, professora Margarida Neves, mas pouco se sabia além das informações básicas. Só haveria um caminho, conversar com as personagens vivas da história (e da estória), Marina e Nélida. Elas foram extremamente gentis e, no meio da pandemia, se dispuseram a falar sobre aquela tarde na PUC em 1975.

Os leitores terão a surpresa e o prazer de ver as fotos e ler os depoimentos das personagens que viveram aquele episódio. Além desses dois depoimentos, eu propus, e Maria Bethânia aceitou, falar da sua relação de leitora e intérprete dos textos de Lispector. É um material de singular importância e relevância histórica.

O que o livro vem acrescentar às obras e ensaios escritos sobre Clarice?

Espero que muito. Clarice é inesgotável. O livro é um passo em direção a mais uma tentativa de dar conta de sua vasta obra. Clarice é uma das maiores escritoras em língua portuguesa, uma fonte inesgotável, uma de nossas referências de sensibilidade, beleza, humanidade e consciência crítica do mundo.

Com certeza "Quanto ao futuro, Clarice", mais do que uma homenagem ao centenário da autora, será uma obra de referência para os futuros estudos da sua trajetória artística. Vários alunos na PUC, interessados na literatura clariciana, em especial nos departamentos de Letras, Psicologia e Design, mostram interesse em desenvolver pesquisas sobre a autora, sua vida e obra.

Os contos, os textos de literatura infantil e, principalmente, A paixão segundo G.H., Água VivaUma aprendizagem ou O livro dos prazeres e A hora da estrela são as obras fundamentais abordadas no livro. Na verdade, a coletânea fala sobre quase todas as obras de Clarice, inclusive das cartas e das crônicas. Cada autor escolheu o seu caminho, eu os deixei totalmente livres. Quanto ao futuro, Clarice é um marco nos estudos de Literatura Comparada, de Literatura Brasileira; é um marco nos estudos da obra de Clarice. Ele vai contribuir muito para novas pesquisas, análises e livros e é uma produção que tem a cara da PUC-Rio.

Como vê o desenvolvimento de projetos interdisciplinares a partir da leitura, para além da publicação?

Vejo com muito otimismo. Acho que toda essa movimentação em torno do centenário (matérias na mídia, publicações, documentários, exposições) desperta ainda mais nos jovens o interesse pela leitura e pela obra da escritora.

Serão muitos os trabalhos, as pesquisas, dissertações e teses que partirão deste livro para outros e bem-sucedidos projetos. Assim espero como leitor, professor, pesquisador e Decano de um Centro por onde passa o coração selvagem da literatura de Lispector, o humano.


Sobre o lançamento:

O lançamento de Quanto ao futuro – Clarice foi feito na Livraria da Travessa, do Shopping Leblon e contou com a presença do Reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J., com os irmãos Miguel e Vitor Paiva, cartunista e escritor, com a atriz Denise Milfont, com a escritora Marina Colasanti, amiga de Clarice, o antropólogo Roberto da Matta, entre muitos outros acadêmicos, pesquisadores e artistas.




Publicada em: 06/12/2021