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Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos

Ensino, Pesquisa e Desenvolvimento

Por Renata Ratton Assessora de Comunicação - Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos
Segunda edio do Seminrio de Prticas Inovadoras no Ensino Superior traz debate sobre relaes professor-aluno e uso de tecnologia incorporado a novas metodologias de ensino
Aspectos emocionais, sociais e reflexes sobre a interseo docncia-pesquisa foram pontos altos da discusso

O Vice-Reitor da PUC-Rio, pe. lvaro Mendona, S.J., e o Vice-Reitor para Assuntos Acadmicos, prof. Jos Ricardo Bergmann, abriram o II Seminrio de Prticas Inovadoras no Ensino Superior - Foto: Renata Ratton/Vice-Reitoria para Assuntos Acadmicos

Ainda faz sentido o que fazemos? A provocao, e tema do encontro, direcionou os trabalhos do II Seminrio de Prticas Inovadoras no Ensino Superior, promovido pela Coordenao Central de Educao a Distncia, CCEAD, com o apoio da Vice-Reitoria para Assuntos Acadmicos, no ltimo dia 12. A segunda edio, cujo foco eram as relaes professor-aluno e os desafios do uso das tecnologias aliado a novas metodologias de ensino, teve formato diferente, incluindo mediao e debates.

Na abertura, o Vice-Reitor da PUC-Rio, pe. lvaro Mendona Pimentel, S.J., teceu uma reflexo sobre o ciclo de energia inerente a todas as aes executadas pelas pessoas e instituies, que tem um pice de fora, de eficincia, de frutos. “Em algum momento, porm, preciso pensar no que podemos fazer para o que fazamos continuar dando certo, ou nos perguntar se o que fazamos ainda faz sentido ou se devemos fazer algo diferente. E como isso pode ser feito, sem perdermos a nossa identidade”, ponderou. O Vice-Reitor para Assuntos Acadmicos, professor Jos Ricardo Bergmann, deu boas-vindas aos presentes lembrando a importncia das discusses sobre as novas tecnologias e metodologias de ensino.

Aexposio do professor Edgar Lyra Netto, da Filosofia, buscou "problematizar a questo inicial, de modo mais profundo, primeiro contextualizando-a para, depois, coloca-la sob o ponto de vista dos alunos e professores e, ento, discutir as novas tecnologias, que dizem respeito a ambos". Edgar ressaltou a complexidade de se pensar o que pode vir a ser uma “PUC 4.0” mantendo seus princpios, bem como o interesse em verificar e dar visibilidade ao que j est sendo feito.

Edgar Lyra, durante sua apresentao: "Ainda faz sentido o que fazemos?" - Foto: Renata Ratton/Vice-Reitoria para Assuntos Acadmicos

O Brasil um pas promissor para o retorno de investimentos em educao. A esse contexto se somam as reformas curriculares, tanto a daBase Nacional Comum Curricular como a Reforma do Ensino Mdio, que, embora digam respeito ao ensino bsico, tm impacto direto nas universidades. Caminhamos, ainda, em uma direo de singularidade tecnolgica; quem acompanha vozes futuristas, como a de Ray Kurzweil, do Google, sabe que esto projetando, para 2045, a singularidade e, j para 2030, a operabilidade integral da interface crebro-mquina, observou o professor.

Segundo Edgar, para as instituies, todo esse cenrio tem a ver com a ideia de atualidade, de alinhamento internacional, de reproduzir o que h de ponta no mundo, com impactos no ensino e na pesquisa, dentro de um mercado que chega a ser caracterizado pelo mundo corporativo com a sigla VUCA - volatility, uncertainty, complexity and ambiguity (volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade). “Uma coisa a se perguntar que formao devero ter os profissionais desse mundo 3 ou 4.0.”.

O filsofo tambm destacou a importncia de os professores buscarem conhecer bem e ouvir seus alunos, aguando a percepo sobre todas as suas questes, bem como a reflexo acerca da diviso de prioridades entre o ensino qualitativamente diferenciado e a pesquisa. Na formao de professores, sublinhou o importante esforo da Universidade para que a licenciatura se aprimore cada vez mais.

Os professores precisam se abrir para a possibilidade de usar os novos recursos com inteligncia, e no para ter mais do mesmo, sobretudo na medida que os novos alunos tm hbitos e expectativas totalmente diferentes, as subjetividades deles esto sendo afetadas pela velocidade da vida e pelos gadgets com os quais convivem. Tm outro timing, outra percepo de tempo e espao. Edgar ressaltou aindaque oaprimoramento docente e a inovao tecnolgica se misturam com questes curriculares:

No se trata apenas de proporcionar ao professor uma formao continuada, mas tambm de repensar os currculos para questes logsticas, geogrficas, tico-polticas, entre uma srie de fatores, procurando entender qual o lugar do aprimoramento docente casado com a inovao tecnolgica. No mais possvel descolar o aprimoramento docente da inovao tecnolgica porque as tecnologias sero mal utilizadas em sala de aula, se no houver uma reviso dessas prticas luz da percepo dos alunos.

A apresentao de Edgar Lyra deu lugar mesa-redonda constituda pelo professor Augusto Csar Pinheiro da Silva, do Departamento de Geografia e Meio Ambiente, a professora Zena Eisenberg, do Departamento de Educao, do Ncleo de Orientao e Apoio Pedaggico (NOAP) e da Rede de Apoio ao Estudante (RAE), e pela psicloga Deborah Sanchez Ferreira, do Servio de Orientao Universitria (SOU-CTC).

O professor Augusto Csar ressaltou a importncia de transformar o ensino em um instrumento de pesquisa; ao centro, a professora Zena Eisernberg, da RAE, seguida pela psicloga Deborah Sanchez, do SOU-CTC - Foto: Renata Ratton/ Vice-Reitoria para Assuntos Acadmicos

O professor Augusto Csar reiterou o carter essencial do apoio institucional que a PUC-Rio vem provendo nos ltimos anos formao de professores, colocando-a em posio de destaque no Rio de Janeiro. Tambm enfatizou o valor da relao professor-aluno dado pela Universidade, onde encontrou a possibilidade de pensar a educao como ponto de pesquisa.

Na qualidade de professor de sala de aula tanto na graduao quanto na ps-graduao, tenho uma linha de pesquisa em que a educao geogrfica um dos pontos centrais de discusso. Quando uma instituio pensa a educao como pesquisa, a prtica em sala de aula passa a ser uma vertente da pesquisa terica, com consequente aprimoramento da qualidade. Trata-se da construo do pensamento em torno da relao professor-aluno e da revalorizao da esgarada relao docncia discncia. E continuou:

No momento em que a instituio pensa a prtica docente como uma linha de pesquisa, abre espao para a formao, nas ps-graduaes, de uma linha de educao e de metodologias de ensino em uma rea especfica, em que a prtica da sala de aula passa a ser um campo de experimentao dos mais variados pontos da pesquisa do campo duro. Teorias, metodologias, estratgias tm que ser pensadas como pesquisa e isso traz, portanto, o campo do ncleo duro de formao para as licenciaturas e para a maneira como se d a relao professor- aluno na sala de aula das graduaes, ponderou.

De acordo com ele, a questo noutilizar o celular ou o notebook apenas comouma estratgia para manter o aluno em sala de aula, mas, sim, para flexibilizar as formas de aprendizado.

Passar um filme a grande maioria j faz, mas buscar entender como isso pode ser incorporado na flexibilidade da formao do prprio docente pesquisa, e o professor ter que recorrer aos tericos e observar claramente como determinados mecanismos podem ser implementados para que desenvolva essa pesquisa. Isso, inclusive, passvel de financiamento. Hoje, a comunicao, as relaes se do em rede. E devemos criar mecanismos flexveis para que a prtica da leitura terica se transforme em discusses tericas, o que pode ser uma coisa muito interessante e agradvel.

Para Augusto Csar, professores devem procurar ousar na flexibilizao do tempo que necessitam estar em sala de aula. Considerando as questes legais envolvidas, devem pensar como orquestrar as relaes de formao com meios de interao diversificados. “Balancear encontros presenciais, discusses de texto com outras metodologias de ensino to ou melhor articuladas do que as presenciais. Essa flexibilidade faz parte da vida social, reduzindo problemas nas relaes professor-aluno”, argumentou.

A professora Zena Eisenberg fez uma breve exposio sobre o trabalho de apoio aos alunos, efetuado pela Rede de Apoio ao Estudante, em questes que vo de dificuldades relacionadas leitura e escrita at as necessidades especiais, passando por orientaes vocacionais e psicolgicas. Ela apresentou aspectos de avaliaes annimas efetuadas com os estudantes atendidos pela rede.

Ao final de todos os semestres, desde 2014, os alunos efetuam uma avaliao annima dos servios. Dos aspectos positivos mais presentes, o campeo o acolhimento. Falam do calor humano, de ter uma pessoa a quem se reportar toda semana. Em segundo lugar, est o fator relacional, que o estar em grupo discutindo seus problemas. Os grupos so constitudos de forma heterognea, totalmente baseados no horrio disponvel dos alunos, ento no h grupos temticos, todas as reas interagem, explicou.

Zena relatou que, com o apoio da RAE, os alunos afirmam ter melhorado suas notas, reportam aumento da autoestima e mais organizao nos estudos: “todas essas questes encontram a didtica quando se pensa na relao professor-aluno e a importncia da relao do aluno com seus pares. ”

A psicloga Deborah Sanchez, do SOU-CTC, tambm apresentou resultados de pesquisas efetuadas com alunos do Centro e comentou as dificuldades emocionais encontradas, desde o incio, no ambiente universitrio, como a quantidade de aulas, provas, professores, somada pouca autonomia que muitos alunos ainda tm e resistncia frustrao.

Ela destacou a ansiedade relacionada ao ambiente mais competitivo, em que o coeficiente de rendimento (CR) alto uma meta a ser perseguida. Um ambiente em que o aluno tem que se destacar, sair de sua zona de conforto. “Por outro lado, h alunos que residem em locais violentos, o medo est presente e gera o aumento da ansiedade. Temos que olhar para a sade emocional e o excesso de medicalizao, com uso, muitas vezes, descontrolado desubstncias como a ritalina e antidepressivos. a gerao do aqui e agora, que no est vendo o impacto que isso gera frente”, alertou.

Deborah tambmmencionou o problema da desmotivao. “O aluno no sabe lidar com a frustrao do contato imediato com a teoria e da falta de contextualizao em relao profisso escolhida”. Segundo a psicloga, h preferncia pelas aulas tericas, seguidas de exerccio, e pelas aulas-projeto, as disciplinas mos na massa (hands-on).

De acordo com a pesquisa, com relao substituio das aulas presenciais por vdeo-aulas e transformao das aulas presenciais em espaos de exerccios e dvidas, os alunos se dividiram: para uns, as vdeo-aulas evitariam a discrepncia entre aulas de diferentes professores, trariam mais flexibilidade na relao como o tempo e facilidadecom o recurso de avanar e voltar; moradores de localidades violentas tambm julgaram se beneficiar, em virtude da perda de aulas em casos de situaes risco;a outra parte dos alunos acreditaser importante a presena do professor para prender a ateno e tirar dvidas no momento da explicao; ponderaram, ainda, que as vdeo-aulas seriam interessantes como um backup de assuntos dados, mas no substituiriam o aprendizado presencial, j que dvidas de outros alunos geram discusses que ampliam a proposta da matria abordada, auxiliando a compreenso da teoria; por ltimo, as vdeo-aulas exigiriam mais organizao e maturidade.

Achei muito importante mostrar esses dois lados porque isso volta para o lugar do professor, valorizado por sua ateno, disponibilidade e retorno, observou a psicloga.

As professoras Maria Rita Salomo (esq.) e Daniela Vargas mediaram os debates - Foto: Renata Ratton/ Vice-Reitoria para Assuntos Acadmicos

Em sua fala, a professora Daniela Vargas, coordenadora central de graduao, citou aspectos abordados por cada um dos palestrantes, ressaltando o dilema permanente dos professores na diviso entre a docncia e a pesquisa,assim como a importncia das questes emocionais envolvendo o aprendizado, aspecto que vem merecendo ateno cada vez maior dos instrumentos de avaliao do MEC.

Por outro lado, Daniela relatou o esforo da Universidade no suporte ao docente, em iniciativas como as oficinas didticas de apoio formao pedaggica (vide: http://vrac.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=899&sid=17) e nos trabalhos da prpria RAE, inclusive em relao s necessidades especiais.

Aps os debates com a plateia, mediados pelas professoras Daniela Vargas e Maria Rita Passeri Salomo, coordenadora de licenciaturas, a professora Gilda Helena Campos, da CCEAD, encerrou o encontro sublinhando queseu objetivo foi a reflexo sobre a formao docente, a interao com os alunos e o uso das novas tecnologias, assim como sobre as diferentes formas de se trabalhar a educao a distncia com as metodologias aliadas aos recursos. “Transformar as formas de dar aula, mas sem perder a qualidade”.




Publicada em: 29/06/2018