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Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos

Ensino, Pesquisa e Desenvolvimento

Por Renata Ratton Assessora de Comunicação - Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos
Principal autora de relatrio da ONU sobre Cooperao Sul-Sul em Paz e Desenvolvimento, Isabel Rocha de Siqueira, do IRI, participa de frum e encontro de experts abordando intersees entre Paz e Desenvolvimento e a Agenda 2030

Instituto figura como importante referncia na rea da Cooperao Sul-Sul no Brasil, principalmente pelos trabalhos desenvolvidos no mbito do BRICS Policy Center, think tank vinculado

Isabel de Siqueira (terceira, a partir da esquerda) integrou o painel feminino no BAPA +40 - Foto: divulgao


A professora do Instituto de Relaes Internacionais Isabel Rocha de Siqueira participou do BAPA+40, em Buenos Aires, evento organizado em parceria com o Escritrio de Cooperao Sul-Sul, da ONU (UNOSSC, em ingls), que abordou a Cooperao Sul-Sul para Paz e Desenvolvimento. Ela principal autora do relatrio comissionado pelo escritrio, The Case for South-South Cooperation on Peace and Development, oficialmente lanado no encontro.

Em abril, a pesquisadora participou ainda, na ONU, em Nova Iorque, do Expert Group Meeting on SDG 17 in preparation for High-level Political Forum 2019: Harnessing the Means of Implementation through Multi-Stakeholder Partnerships to Build Inclusive and Equitable Societies, que envolveu discusses em torno de parcerias diversas para a garantia da incluso e da igualdade na implementao dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentvel.

O Instituto de Relaes Internacionais uma importante referncia na rea da Cooperao Sul-Sul no Brasil, principalmente pelos trabalhos desenvolvidos no mbito do BRICS Policy Center, think tank vinculado, do qual Isabel Rocha de Siqueira tambm faz parte. Em entrevista assessoria de comunicao da Vice-Reitoria para Assuntos Acadmicos, ela fala sobre as experincias dos dois encontros e da importncia do relatrio e dos estudos desenvolvidos pela Universidade.

Qual a importncia do BAPA+40 para a Cooperao SUL-SUL?

O BAPA +40 (em portugus, Plano de Ao de Buenos Aires – PABA) foi um marco na Cooperao Sul-Sul. O primeiro encontro, na capital da Argentina, em 1978, foi organizado sob os auspcios da ONU e gerou um documento que delineia como os pases do Sul colaboram entre eles. At ento, havia apenas diretrizes, uma viso Norte-Sul (dos pases chamados desenvolvidos para os pases em desenvolvimento) do que seria o desenvolvimento e de como seria possvel atingi-lo.

Quarenta anos se passaram sem que uma reunio do BAPA fosse realizada. Essa reunio foi de fundamental importncia num perodo em que vivenciamos um ataque pesado ao multilateralismo, em que governos afins ao de Donald Trump atacam agncias como a ONU, com a ideia de que se trata de uma agenda ‘de fora’, que no vislumbra os interesses nacionais. Entretanto, a Cooperao Sul-Sul, que essa rea especfica da poltica internacional, sempre foi voltada para atender aos interesses dos pases do Sul. uma cooperao que tenta, em teoria, ser mais horizontal, mais solidria, a constituir capacidades que depois fiquem e possam gerar frutos locais, em todas as reas de desenvolvimento.

Alm do aniversrio de 40 anos, a importncia do encontro foi para, neste momento, lembrar daquele compromisso de investir na cooperao e tambm porque a Agenda 2030 da ONU coloca como um dos principais meios de sua implementao o investimento em parcerias, a fim de que pases com mais dificuldades em algumas reas possam ter algum tipo de compensao.

Como se deu a elaborao do relatrio The Case for South-South Cooperation on Peace and Development, do qual foi a principal autora?

Esse relatrio fruto de um esforo cooperativo. Ele foi comissionado pelo UNOSSC e eu o escrevi como representante do Centro de Estudos e Pesquisas do BRICS (BPC - IRI). Tenho uma linha de pesquisa no centro, junto com a professora Manuela Viana, chamada Segurana e Desenvolvimento no Sul Global (SEED), e integramos, alm de outros professores do BPC, a rede Global South Thinkers on Peace and Development, criada com o apoio da ONU, mas que congrega pessoas do Bahrein, frica do Sul, Equador, Chile, Guatemala, Nigria. A primeira reunio da rede foi na Guatemala, em outubro do ano passado. Esse encontro foi custeado pela ONU e deu o pontap para iniciar o trabalho do grupo e lana-lo em fruns internacionais, porque a partir dos conceitos, das teorias, das prticas dos autores do Sul Global, o relatrio procura mostrar o que a nossa viso da interseco entre paz e desenvolvimento em nossos pases.

O discurso predominante nos pases do Norte, em relao paz, por exemplo, um discurso mais linear: o pas est no conflito e sai do conflito. O nosso entendimento de paz, e da interseco entre paz e desenvolvimento, cheio de nuances, mais complexo. Um programa de combate ao HIV entre jovens contribui para a paz. Tudo depende do contexto em que se est. Esse conceito de paz depende de uma certa coeso social, que construda por vrios mecanismos – educao, sade. A est a interseco com o desenvolvimento, j que so reas comumente atribudas a ele.

Todos os grupos contriburam com estudos de caso de suas instituies, reviso, foi um esforo muito valioso e intercultural. H conceitos do rabe, trazidos pelo Bahrein, h estudos de caso da frica, foi construdo dessa forma. O relatrio foi oficialmente publicado em maro e eu o apresentei num painel no BAPA +40, que foi composto s por mulheres.

Qual o enfoque dos estudos desenvolvidos pelo IRI na rea da cooperao Sul-Sul no Brasil.

A agenda da Cooperao SUL-SUL foi muito fomentada, aqui no IRI e no BPC, pelo professor Paulo Esteves, que foi diretor do Instituto e o atual diretor do BPC. Esse o tema com que ele trabalha mais proximamente e, hoje, temos essa identidade aqui no IRI e no Centro muito por causa dele. , inclusive, uma das vertentes de nosso mestrado profissional.

Particularmente, acredito ser muito importante avaliar os dados da cooperao. H uma dificuldade de produo em vrios pases do Hemisfrio Sul – em muitos casos afetados por conflitos, golpes, onde houve trocas frequentes do poder –, onde nem sempre h memria institucional dos projetos realizados. s vezes, muito difcil acessar dados concretos sobre o que o pas tem feito, e o Brasil tambm tinha um pouco essa dificuldade.

Por outro lado, as anlises conjunturais so muito importantes, mas o que o grupo do BPC tenta fazer extrapol-las, trazer um pouco das teorias de relaes internacionais, das teorias de desenvolvimento para pensar o que significam na prtica: quais so as identidades, os valores, que tipo de agendas esto sendo avanadas com esses projetos. Criticar esse modelo tambm porque no s porque fazemos diferente que necessariamente estejamos fazendo melhor; buscar, ainda, contribuies das epistemologias do Sul, como as cosmologias indgenas, tentando entender o que importante para as comunidades beneficiadas com os projetos.

Supostamente, na Cooperao Sul-Sul deveramos fazer diferente do Norte. Estamos fazendo? importante, para alm da anlise conjuntural, trazer uma agenda mais terica de discusso, uma anlise mais profunda dos acontecimentos. Para mim, essa a importncia de estudar a Cooperao Sul-Sul hoje. Como fazer diferente, como no cometer os mesmos erros, como no usar a cooperao somente para interesses prprios? Faz parte da anlise crtica acadmica manter esses questionamentos.

O que destaca sobre as reunies da ONU de que participou?

O BAPA + 40 teve a abertura do chefe do escritrio da ONU para a Cooperao Sul-Sul, alm de uma representante do mesmo escritrio, que ajudou a fundar o Global South Thinkers e j foi fellow no BPC, Cecilia Milesi.

A mesa-redonda de que participei foi composta s por mulheres com experincias muito intensas e diversas. Contou com uma representante da Unesco – que apresentou um projeto interessantssimo sobre o resgate de monumentos histricos e culturais em pases que vivenciaram conflitos, como o Iraque, sublinhando a importncia disso para a paz da populao local, pelo sentimento de retorno normalidade e da valorizao de seus bens histricos.

Tambm participaram uma integrante do Instituto Legal da Argentina, que viaja, em cooperao, para zonas que viveram conflito, auxiliando famlias a reconhecer corpos em valas comuns e capacitando as equipes locais para lidar com restos deteriorados de guerra; e uma jamaicana, representante da Commonwealth, que responde pela rea de Paz e Desenvolvimento de 53 pases, que destacou a importncia de se falar em meios de vida (liveliyhood) para populaes que de pequenas ilhas, por exemplo, onde um desastre natural ou um vazamento de leo pode extinguir as formas de sobrevivncia de muitas pessoas. A mediadora era uma indiana que trabalha no departamento de Political Affairs da ONU.

O Expert Group Meeting on SDG 17 in preparation for High-level Political Forum 2019 foi uma reunio fechada, com cerca de 16 experts, para discutir parcerias inclusivas para a implementao do objetivo 17 da Agenda 2030.

No encontro, discutimos como captar parcerias e aproveitar as que existem de forma eficiente para catalisar fundos, apoio poltico, ideias, dados, enfim, para explorar tudo o que se puder tirar dessas parcerias no fomento Agenda 2030.

Foi uma reunio fechada, sob Chatham House Rules (em que no se pode atribuir ideias a pessoas, com um relatrio annimo). Esse relatrio vai alimentar os debates, em julho, High Level Political Forum da ONU, em Nova Iorque, sobre a implementao da agenda.


Isabel de Siqueira durante o Expert Meeting on SDG17 - Foto: arquivo pessoal



Publicada em: 20/05/2019