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Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos

Prêmios e Destaques Acadêmicos

Por Renata Ratton Assessora de Comunicação - Vice-Reitoria para Assuntos Acadêmicos
Pesquisa interdisciplinar sobre a Floresta da Tijuca é única brasileira premiada no Congresso Internacional de História Ambiental

Artigo, que conquistou o segundo lugar, apresenta abordagens conceituais e empíricas

Gabriel Sales recebe o certificado durante o 3rd World Congress of Environmental History - Foto: arquivo pessoal


O artigo Ecological and historical aspects of the reforestation carried out in the Tijuca Forest, RJ, Brazil, in the 19th century
, de autoria do aluno Gabriel Paes da Silva Sales, da pós-graduação em Geografia, e de sua orientadora Rejan Guedes-Bruni, diretora do Departamento de Biologia, foi o único trabalho brasileiro premiado pela Environmental History Cluster Austria - durante o 3rd World Congress of Environmental History – tendo conquistado o segundo lugar. O congresso foi realizado entre os dias 22 e 27 de julho, na Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis.

– O encontro quinquenal reúne os principais pesquisadores de História Ambiental. Compareceram cientistas de mais de 43 países e de todos os continentes. O nosso trabalho foi reconhecido com o segundo lugar pela busca por abordagens conceituais e empíricas para a História Ambiental, que são interdisciplinares e contribuem significativamente para o avanço do conhecimento, destaca o autor. A pesquisa trata do reflorestamento empreendido na Floresta da Tijuca na segunda metade do século XIX:

– À Floresta da Tijuca é atribuída a percepção - e isto, em algum grau, já é uma lenda - de que toda a sua extensão é fruto do reflorestamento empreendido por um enigmático personagem, Major Manuel Gomes Archer, e seis escravos que lhe foram fornecidos, com o precípuo objetivo de salvar a cidade do Rio de Janeiro da iminente crise de abastecimento d’água que se avizinhava desde o início do século XIX. Através do manuseio de ferramentas típicas de diferentes áreas do conhecimento, tratadas de forma integrada, nosso trabalho teve como objetivos reconhecer evidências das áreas onde houve efetivamente o plantio de mudas, no passado; investigar quais espécies foram empregadas no plantio e por quê; identificar a forma de propagação, cultivo e plantio associando-as a silvicultura praticada à época; identificar a formação de uma cultura acadêmica genuinamente brasileira no manejo dos recursos florestais à luz da silvicultura das escolas europeias; e gerar subsídios ao enriquecimento do escopo teórico da jovem restauração ecológica praticada no Brasil, considerando a complexidade biológica encontrada atualmente fruto do pioneiro reflorestamento investigado nesse estudo, esclarece.

Segundo Sales, para alcançar os objetivos desejados, foi necessário transitar por diversas áreas do saber e utilizar variadas metodologias, desde a busca por documentos históricos até a contagem dos anéis de crescimento. “O estudo das coleções botânicas, assim como a cartografia histórica, a climatologia histórica e as explorações de campo também constituíram etapas fundamentais desse trabalho. Assim, a proposta é unir passado e presente, no sentido de promover o diálogo entre linhas de pesquisa de natureza e escopo teóricos distintos”.

Para a professora Rejan Guedes-Bruni, a premiação foi um reconhecimento à inovação proposta na pesquisa, ao buscar integrar campos científicos com ferramentas metodológicas e escopos teóricos muito distintos:

– Gerar evidências sobre o reflorestamento da Floresta da Tijuca, sob a nossa perspectiva, exige coragem para lidar com os muitos desafios inerentes à pesquisa multidisciplinar, ao transitar numa superfície de contato entre áreas científicas relativas à Geografia, História e Biologia. A pesquisa se valeu de documentos de arquivos nacionais e estrangeiros, próprios à prática dos historiadores (relatórios, decretos e normas oficiais, cartas e iconografias) ou de geógrafos (mapas, cartogramas, tabelas de dados climáticos, entre outros), associando-os a dados específicos dos biólogos como coleções botânicas depositadas em herbários nacionais e trabalhos de campo para marcar árvores, coletas amostras de ramos e, o mais inovador, de amostras de lenho. Nas amostras de lenho, observou-se a formação dos chamados anéis de crescimento que aparecem na madeira e, a partir deles, foi possível realizar a datação das árvores e provar quais indivíduos de árvores correspondiam às espécies plantadas, citadas nos relatórios. Uma vez reconhecidas, foi possível avaliar os prováveis locais de plantio (quando cotejados à luz da cartografia histórica), e se o sucesso ou fracasso na produção pretérita das mudas poderia ser justificado pelos dados climáticos históricos, associados aos anéis de crescimento; e, finalmente, se a Floresta da Tijuca foi toda reflorestada ou não. Sair da zona de conforto é o esperado na ciência, não é? Optamos por isto e tudo indica que a Environmental History Cluster Austria (EHCA), dedicada a jovens talentos na História Ambiental, concorda com esse movimento ao premiar a pesquisa do Gabriel.




Publicada em: 13/08/2019